NUNO MELO. OU A EXCELÊNCIA DA POLÍTICA.
Enquanto parlamentar do CDS-PP destacou-se na Assembleia da República pela entrega, combatividade, exposição inteligente e, quanto a mim (o que já torna a apreciação relativa), correcta e justificada do seu "argumentário" político onde muitas vezes me revi. E assim nas suas intervenções politico-televisivas em debates onde, a mor das vezes, era (e é) o mais lúcido.
Aquando do inquérito parlamentar ao caso BPN destacou-se bastante, formando com João Semedo do B.E., uma dupla de verdadeiros inquiridores. Certamente que Nuno Melo será das pessoas que melhor sabe e entende o que se passou naquele caso de polícia. Victor Constâncio então responsável pelo Banco de Portugal e pela supervisão bancária que nada viu (pior que uma "infravisão" foi um caso de absoluta cegueira), exibindo o seu pior lado de peru enfatuado, foi confrontado por Nuno Melo com a sua responsabilização pessoal pelo desastre do BPN mercê da inércia do serviço público que falhou em tudo e em toda a linha. (Como se sabe, Constâncio foi "premiado" com um "tacho" no Banco Central Europeu sabe-se lá por que ínvios caminhos depois do BPN, depois do BPP e depois das tumultuosas aselhices ocorridas no BCP. Um prémio justo, sem dúvida.)
Em 27 de Março de 2013, Nuno Melo, num exercício político de excelência, - é para isso que são eleitos e pagos: para defenderem o interesse publico dos cidadãos que os elegeram e que lhes pagam - questionou a Comissão Europeia e, em particular, o comissário europeu Michel Barnier sobre a bondade da medida então aludida pelo dito comissário e relativa à duplicação do modelo cipriota de resgate "aplicável" a outros países do espaço europeu. A questão clara e concreta referia-se à taxação ou cassação dos depósitos bancários superiores a 100 mil euros, que são o montante tutelado pela garantia geral comunitária em caso de resgate. Havendo quem fale em "2ª resgate" - ou quem peça eleições quanto antes o que, a meu ver, é daquele sinónimo e certeza - a questão é fundamental para o cidadão europeu e ainda mais para o português, pobre cidadão de país intervencionado.
Ontem o comissário fez (mais) luz sobre o tema: e admitiu tranquilamente a dita taxação dos depósitos superiores a 100 mil euros, especialmente em países intervencionados como o nosso e desde que necessário para recapitalização dos bancos em questão. No fundo, elencando uma lista de responsáveis pela capitalização, os contribuintes serão uma categoria última, enquanto os depositantes, quanto aos valores dos depósitos "superiores" serão uma categoria de responsáveis "penúltimos", convertendo o quantum de depósito taxado ou cassado (ou expropriado sem indemnização como, e bem, Nuno Melo já alegou) em capital social do banco assim recapitalizado.
Mais disse o senhor comissário Bernier: é urgente que a União crie o quadro legal e regulamentar para que esta "saída" possa ter previsão e cobertura legal, deixando aos Estados Membros discricionariedade de aplicação concreta.
Virtude maior, e que por inteiro se deve a Nuno Melo: a clarificação da ideia, do conceito, da eventual medida. Assim e às claras para cidadão apreciar, preparar-se, decidir.
Reflexo imediato: a responsabilização do depositante aquando da escolha de um banco e a rejeição dos demais; ou seja, o depósito passa a ter um duplo risco: ou perde-se por insolvência do banco; ou "perde-se" (1) (parcialmente?) por conversão em acções do banco recapitalizado para impedir a insolvência; ou seja, uma espécie de preso por ter e por não ter cão, até porque até 100 mil euros os depósitos estão garantidos nas duas situações. Eis um tema muito complexo e cujo tratamento não cabe num singelo post.
Nota quase final: independentemente da ideia em si - e que mereceu comentários "tontos" que apelam à "moral" da solução por serem proporcionalmente poucos os depósitos superiores a 100 mil euros (número inferior a 2% no caso português, já vi escrito no jornal PÚBLICO), tese que "infectou" o ultimamente lúcido José Gomes Ferreira - e das discussões que a mesma há-de merecer, cumpre destacar o notável trabalho de Nuno Melo, e o serviço prestado a centenas de milhões de europeus comunitários, por estimular a clarificação das "regras de jogo" que contendem com a vida dos cidadãos no que ela tem de mais e de muito relevante: a sua vida patrimonial, presente e futura.
(Nota intercalar e paralela: em momento coevo ao que ia sucedendo em Bruxelas, Ana Drago, preclara e sábia e moralmente superior, insultava o ministro Álvaro Santos Pereira, com blagues sobre blagues, inúteis, grosseiras, malcriadas, e, repito-me, sobretudo inúteis, ou seja, com o maior dos custos, que é infinito porque é nada a dividir por zero. Regressei à infância, e a uns desenhinhos que a edição de sábado do velhinho Diário de Notícias de há quarenta e tal anos publicava sob o título "Descubra as diferenças", que eu, zeloso e criança, me entretinha em casa de avós a descobrir e a assinalar. No caso vertente, a estes digníssimos representantes da Nação a comparação é grosseira e injustíssima para Nuno Melo, e as diferenças saltam de tal modo à vista, estão de tal modo descobertas, que nem gozo dá assinalá-las.)
Como cidadão português e comunitário, a minha gratidão a Nuno Melo pelo excelente serviço prestado a toda a comunidade.
(1) - Escrevo "perde-se" entre aspas porque o valor das acções de um banco assim recapitalizado numa urgência pré-falimentar há-de ser muitíssimo inferior ao seu valor nominal - espreitem-se as cotações do BCP na ordem dos 10 cêntimos (já aconselhei um amigo a dar 10 acções do BCP cada vez que um arrumador lhe arranja um lugar para estacionar, na hipótese do arrumador as aceitar; o que salva a humilhação é serem virtuais...) - e por isso previsivelmente de valor comercial muito inferior ao valor do depósito convertido. Mas sempre é uma prognose; e livremo-nos todos da sua comprovação prática.
